O resultado de uma pesquisa na Reserva Extrativista Marinha de Soure mostrou, preliminarmente, que o tamanho do furo do matapi (armadilhas usadas para a captura do camarão) pode fazer diferença na qualidade dos camarões capturados e também na sustentabilidade da extração da espécie Macrobrachium amazonucum, o camarão regional.

A pesquisa foi feita por meio de uma parceria entre a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Universidade Federal do Pará (UFPA), Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha de Soure (Assuremas) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

A ideia do estudo surgiu em 2015, quando o engenheiro agrônomo da Emater, Sandro Pinheiro, observou a diversidade de matapis usados pelos extrativistas em Soure.

“Estou na Emater desde 2007 e já havia feito trabalhos com manejo de camarão em Curralinho. Em 2015 cheguei em Soure e comecei a fazer parte do Conselho da Resex e trouxe essa discussão relacionada à estrutura do matapi, o furo, a seletividade, e daí, junto com o professor Pablo Mendonça, que atuava no Campus Soure da UFPA na época, fizemos um levantamento e percebemos que havia uma grande diversidade de matapis, relacionada aos furos. Como não tinha um padrão, a gente propôs, dentro da Emater, que se pudesse dar uma resposta técnica relacionada a isso, qual seria o melhor formato.”, relembra o extensionista que também ressalta a preocupação com a viabilidade econômica e ecológica do camarão.

“A nossa percepção é a gente, como Emater, trabalhar a questão econômica, mas também conseguindo aumentar a renda, com a preocupação ecológica da espécie para manter e ter o desenvolvimento, com a garantia da sustentabilidade, já que a gente incentiva a extração, incentiva a comercialização, tenta colocar o camarão dentro da merenda escolar, então é uma preocupação nossa garantir essa sustentabilidade.”

PARCERIA

O início da pesquisa científica se consolidou três anos depois com a parceria com o Campus Soure da UFPA, por meio dos Laboratórios de Ecologia de Comunidades (LECO) e Ecologia e Zoologia de Répteis e Anfíbios (LEZAR) e a Assuremas. Em 2019, foi realizado o trabalho de campo com a instalação de uma Unidade de Observação, onde, de acordo com o relatório do estudo, foram fixados 90 matapis – 30 com furo cilíndrico com 1cm diâmetro, 30 com furo comprido (1cmx 3cm) e 30 com furo cilíndrico de 1,5 cm.

Semanalmente os camarões eram retirados dos matapis. Essa etapa foi realizada de fevereiro a agosto de 2019 como pesquisa acadêmica do aluno do curso de Biologia da UFPA Everaldo Cordeiro, que efetuou as coletas de campo, com medições dos espécimes nos laboratórios da UFPA.

Para o acadêmico, além de buscar respostas sobre o tamanho ideal do furo do matapi para capturar camarões com maior valor de mercado, buscando a manutenção da espécie, o estudo também foi sustentável no sentido de reutilizar materiais que poderiam virar lixo e poluição.

“O matapi de garrafa PET como um apetrecho durável e eficiente, com destaque para esse trabalho a reutilização de 100% dos matérias utilizados para confecção dos matapis, cordas e boias retirados da beira da praia e garrafas das residências e do lixão da cidade, aumentando a vida útil desses materiais.”

Quanto aos resultados preliminares do estudo, dados analisados até o momento sugerem melhor eficiência de matapis confeccionados com garrafas pet com diâmetro de furo superior ou igual a 1cm, para a pesca sustentável do camarão regional na RESEX marinha de Soure.

De acordo com as instituições envolvidas no estudo, outras questões ainda estão sendo avaliadas e devem ser levadas em consideração, tais como proporção de fêmeas e machos capturados, maior captura em relação ao local de coleta (porção do Igarapé: boca, meio e cabeceira), tamanho dos camarões capturados, entre outros parâmetros.

PERPETUAÇÃO

“Esses dados ainda estão em análise, e nossos resultados são preliminares. Mas, nós esperamos encontrar que aumentar o furo do matapi permitiria que camarões menores possam fugir, garantindo a perpetuação das populações. Ao mesmo tempo, não haveria grande perda de peso total de camarão pescado. Ter camarões maiores agregaria mais valor ao produto final vendido pelo pescador, ao mesmo tempo que seria ecologicamente sustentável”, explica o professor doutor Youszef Bitar, coordenador do Laboratório de Ecologia de Comunidades (LECO) do Campus da UFPA em Soure.

Atualmente a extração do camarão regional em Soure, rende aproximadamente 1 milhão de litros por ano, que é consumido em Soure (70%) e Salvaterra (30%). Para Nilson Cardoso, 59 anos, que trabalha no ramo desde os 12 anos de idade, a pesquisa pode ajudar a melhorar o trabalho de extrativistas que, como ele, tiram boa parte do sustento da pesca do camarão.

“Hoje nós temos aproximadamente e torno de 130 camaroeiros trabalhando diretamente com camarão da água doce, mais as pessoas que são envolvidas no contexto familiar e os que trabalham com venda no mercado e feiras. Com esse estudo, já consigo ver um novo horizonte na produção do camarão, principalmente nesse projeto com a seletividade do camarão. Apenas poucos camaroeiros já trabalham com furos maiores e compridos, precisamos ampliar para melhorar a sustentabilidade do produto no nosso município, melhorando a comercialização, o preço e garantindo a reprodução da espécie.”, avalia Nilson, que integra a Assuremas e colaborou com o estudo orientando, com sua experiência, os locais para a instalação dos matapis.

 

 

Fonte: Ascom Emater
Foto: Ascom Emater