Hoje, no Dia da Consciência Negra, o G1 convidou homens e mulheres pretas para indicar produções artísticas, literárias e de audiovisual que todos deveriam conhecer. Em comum, os indicados são também negros.

Gaby Amarantos indica (@gabyamaratos)

Gaby Amarantos é cantora e compositora paraense conhecida internacionalmente. Atualmente, ela também é uma das apresentadoras que comandam o programa Saia Justa do canal GNT.

 

  • DOCUMENTÁRIO: Marambiré

“O trabalho desenvolvido é completamente paraense, tendo a direção assinada por André dos Santos, quilombola da comunidade Boa Vista, na cidade de Oriximiná, e produção da Lamparina Filmes, que é de Belém. Marambiré envolve dança, música e cantos marcados fortemente pelo som da caixa e dos pandeiros, reforçando a herança africana no Brasil.” O documentário está disponível em uma plataforma de streaming.

  • FESTIVAL: Psica

O Psica é um festival que é realizado em vários pontos da capital paraense com debates, oficinas e atrações musicais. “O festival é de música, mas que também tem palestras de audiovisual e que envolve uma galera de audiovisual que tá fazendo um movimento muito bonito em Belém. Os criadores do festival são dois meninos negros da periferia e pra mim o Psica é um Afro-Punk-Ribeirinho da Amazônia”, diz Gaby. Esse ano o festival discutiu com a sociedade paraense o legado afro-ameríndio na Amazônia.

  • LIVRO: Caminhos trilhados na luta antirracista

“Outra dica é o livro de Zélia Amador de Deus uma das primeiras escritoras negras e que tem uma coleção de livros já lançados. ‘Caminhos trilhados na luta antirracistas’ é um deles.” A autora apresenta, por meio de uma produção teórica e politicamente posicionada, dimensões políticas, sociais e culturais que marcaram e marcam a história social e política brasileira ainda pouco conhecida.

Flávia Ribeiro indica (@negra_amazonida)

Flávia é jornalista e também atua como consultora para equidade de gênero e raça.

 

  • LIVRO: Ananse tecendo teias na diáspora

“É fundamental que pessoas negras, principalmente, mas não só, conheçam a intelectualidade produzida na Amazônia. Por isso, indico ‘Ananse tecendo teias na diáspora: uma narrativa de resistência e luta das herdeiras e dos herdeiros de Ananse’, de Zélia Amador de Deus. Na obra, que foi produzida a partir da tese de doutorado de Zélia, eu identifiquei conceitos que mais tarde, foram debatidos por outras intelectuais negras, como ‘O lugar de fala’, de Djamila Ribeiro, ‘O perigo de uma história única’, de Chimamanda Adichie, dentre outros. No livro, ela traça um paralelo entre a história de Ananse, uma divindade aranha que se esforça para poder contar histórias, numa época em que todas pertenciam a Nyame. É uma metáfora sobre o povo negro da diáspora que elabora estratégias para constar suas próprias histórias e como as políticas afirmativas influenciam nisso.”

  • CURTA: Cores e Botas

“O curta de Juliana Vicente conta a história de Joana, uma menina negra que sonhava em ser Paquita. Ela tinha roupas, botas, brinquedos da Xuxa, ou seja, não era uma menina pobre. Ainda assim, Joana não passou no teste para ser assistente de palco da Xuxa. No teste, apenas meninas loiras, de cabelos lisos e o incômodo de quem aplicava o teste por ver uma menina negra. O filme fala da Joana, mas poderia ser eu, exceto pelo fato de que eu era pobre mesmo. Ainda assim, na minha periferia, quando brincávamos de paquitas, entre as crianças não havia diferenças. Mas alguém de fora sempre apontava que eu não poderia ser Catuxa, Pituxa, Miuxa, etc, me chamavam de ‘paquita morena’.”

Darlah Farias indica (@deusanegra_amazonida)

Darlah Farias é advogada, ativista do movimento negro e integrante da Comissão da Mulher e Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil seção Pará (OAB-PA).

 

  • WEBSÉRIE: Pretas

A série é da produtora Joyce Cursino, que também é jornalista. A produção relata as vivências de mulheres negras em várias perspectivas de classe, gênero e raça na realidade amazônica paraense.Os episódios contam histórias que trazem discussões sobre aceitação, sexualidade, solidão, intolerância religiosa e mostram a humanidade da mulher preta. Um trabalho de resistência diante das narrativas opressoras. A websérie tem 9 episódios e está disponível no YouTube.

  • LIVRO: Preto Poesia

O livro do poeta de literatura marginal Preto Michel traz em versos poéticos o combate às discriminações diárias que jovens negros periféricos de Belém vivenciam.

Gustavo Aguiar indica (@aguiarogus)

Gustavo é jornalista e há mais de cinco anos, trabalha com produção cultural e comunicação de eventos e artistas musicais, sendo um dos criadores do selo Urtiga, que distribui música independente feita no estado.

  • LIVRO: Úrsula

“Firmina é a primeira escritora negra brasileira de que se tem notícia e tem textos em romance e contos abolicionistas de denúncia da opressão a negros e a mulheres no Brasil do século XIX. Por anos, a obra dessa maranhense foi ignorada e começou a ser debatida somente a partir da década de 1970. Seu texto mais publicado, o romance ‘Úrsula’, descreve a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas da África, humanizando essas histórias como ninguém antes dela. Pouco se sabe sobre sua história, mas o primor de sua escrita, descrição de personagens, sátira da vida branca brasileira e registro das relações de raça e classe são de imensa importância para a literatura e história nacional.”

  • LIVRO: Comunidades, Algoritmos e Ativismos Digitais: Olhares Afrodiaspóricos” – Tarcízio Silva (Org.)

“Muito antes das denúncias de como os algoritmos das redes sociais perpetuam o racismo, o pesquisador Tarcízio Silva já avisava que tinha algo de errado nas redes sociais. Mestre em Comunicação e Doutorando em Ciências Humanas e Sociais, Tarcízio é organizador dessa obra com 14 capítulos que analisa as relações de raça, racismo, negritude e branquitude com as tecnologias digitais como algoritmos, mídias sociais e comunidades online. O livro ainda tem prefácio assinado pelo rapper Emicida. Sem dúvida, uma obra importante para o movimento negro do mundo inteiro e para os estudos de raça e comunicação digital que chega em tempo.”

Nay Jinknss indica (@nayjinknss)

Nay é fotógrafa documentarista, filmmaker e educadora social.

 

  • ARTISTA: Matheus Almeida

“O Matheus já está há um tempo trabalhando com o audiovisual só que eu acho que esse momento que a gente tá vivendo é um momento da gente descobrir a nossa direção de fotografia enquanto pessoas negras discutindo e produzindo audiovisual. É muito importante quando a gente atinge um lugar de privilégio, buscar dar mais espaço para a galera que está nas bases, para quem está começando, ocupando, resistindo, tomando de volta. ”

  • ARTISTA: Nic Dias

“Existe muita militância nesses trabalhos onde a gente está dialogando com o aliado branco, com a sociedade, com os negros que nem se reconhecem ainda como negros, e o som da Nic é um momento já muito empoderado onde ela já vai para o fronte mesmo, pro confronto, para os questionamentos. A literatura dela não faz curva. É muito difícil você ver uma mulher na batalha de MCs ou tendo visibilidade. A poesia dela é uma poesia muito necessária, principalmente para as crianças começarem a entender e começarem a naturalizar esse som e compreender as palavras de fato, porque existe uma mensagem.”

Gabriel Conrado indica (@eguapreto)

Gabriel é fisioterapeuta, ativista e comanda um canal Égua Preto no Youtube, onde ele fala da realidade da negritude numa sociedade racista.

 

  • LIVRO: Eu sei porque o pássaro canta na janela

“É o livro da Maya Angelou, uma escritora americana, onde ela conta parte da infância dela e a adolescência, quando ela sofre racismo, abuso sexual e começa um processo de consciência racial em uma época de apartheid social nos Estados Unidos. É um livro extremamente social para que todo mundo comece a entender como é a visão do racismo a partir do ponto de vista de uma criança e da adolescência e como ela lida com as diversas maneiras que o racismo atravessa tanto a ela quanto os familiares, quantos as pessoas que estão em volta dela e como ela percebe nesse mundo”.

  • LIVRO: O genocídio do negro brasileiro

“Esse livro é do Abdias do Nascimento, onde ele conta as várias maneiras em que o negro aqui no Brasil sofreu esse processo de genocídio. Tanto na hiperssexualização, quanto na negação de sua negritude, quanto no processo de embranquecimento, como da eugenia que o Brasil passou, do racismo científico e quais são as peculiaridades que esse racismo apresenta. Eu digo que é um livro de cabeceira que todo mundo que quer ser antirracista e criar uma empatia para com a situação do negro no Brasil, pra entender sobre racismo e poder falar alguma coisa, deveria ler. Deveria ser o livro de cabeceira de todo brasileiro”.

Paulo Victor Squires indica (@paulovictorsquires)

Ativista e advogado membro da Comissão de Defesa da Igualdade Racial, Etnia e dos Quilombolas da OAB/PA.

 

  • LIVRO: Um defeito de cor

“O livro conta a história de uma menina que é sequestrada no continente africano, trazida para o Brasil, forçada a ser escrava. Passou a infância, a adolescência e parte da vida adulta sendo escrava. O livro retrata fatos históricos do Brasil na época, descrevendo como se deu o processo de escravidão e conta a história de algumas revoltas no Brasil, além de falar da cultura africana, das religiões de matriz africana e relação com estrangeiros. Apesar de ser o livro de uma personagem, conta a história de vida dela, tanto na escravidão como no pós escravidão, mas é um livro que fala da história do nosso país. É um livro lindo, que no primeiro momento assusta qualquer leitor, porque tem 900 páginas, mas você termina o livro sentindo falta dessa história, querendo mais, agarrado nele. Ana Maria Gonçalves fez uma pesquisa absurda e escreve esse livro de uma forma fantástica”.

  • LIVRO: Cabeça de porco

“É um livro do MV Bill, Luiz Eduardo Soares e do Celso Athayde. Um livro que fala do nosso momento atual. Eles viajaram diversas cidades no país, diversas comunidades nas cidades pra fazer esse comparativo na cidade deles do Rio de Janeiro. Tem um capítulo que ele falam de Belém, inclusive. Na viagem deles, visitam algumas comunidades daqui. Fala sobre violência policial, sobre racismo, sobre minorias, sobre sonhos, sobre invisibilidade. É um livro muito reflexivo e importante para falar sobre esse contexto atual de violência urbana e tráfico de drogas e como essas relações acontecem”.

Pelé do Manifesto indica (@peledomanifesto)

 

  • POETA: Preto Michel

O paraense Preto Michel é militante do Movimento Negro e do Hip Hop desde 1996, atuando como educador e ministrando oficinas de grafite, fanzines, comunitárias em projetos sociais em comunidades e escolas. Em 2012, lançou seu primeiro conto na ‘Coletânea Pelas Periferias do Brasil’ e em seguida lançou seu livro ‘O Assovio da Matinta Pereira’. Em 2017, lançou projeto Escambo Literário, de incentivo de escrita e literatura em escolas de Belém.

  • POETA: Sérgio Vaz

Um dos principais nomes da literatura marginal no Brasil, o mineiro Sérgio Vaz se mudou para São Paulo aos cinco anos de idade. O poeta tem nove obras publicadas, sendo cinco delas independentes. Em sarau rap, no Centro Cultural Vergueiro, o poeta apresenta o poema ‘Magia Negra’. Com mais de seis prêmios, o artista lançou o DVD ‘Cartão Postal Bomba!’ em que recita o poema ”11 Os Miseráveis’.

Aiala Colares indica (@aialacolares)

 

  • LIVRO: Periferias sob vigilância e controle

É um livro de autoria própria que retrata os conflitos sociais urbanos na periferia de Belém a partir da sobreposição de territórios que envolvem o Estado, as milícias e o narcotráfico e que atingem sobretudo a juventude negra que é vítima de homicídios. É uma produção que trabalha com dados de 2014 a 2017 e traz um pouco dessa realidade das periferias de Belém. Acho que é uma indicação para quem tem interesse de conhecer mais as questões sociais e urbanas da capital.

  • LIVRO: Perdão de um racista

Livro “O perdão de uma racista”, do professor Domingos Conceição, é o que chamam de literatura negro-juvenil. O autor é negro, sociólogo, amazônida, militante do movimento negro mucambo. O livro é interessante porque além de ser uma produção recente, é também muito bem antenado com o nosso contexto atual e fala um pouco sobre a importância do branco na luta antirracista no Brasil.

Israel Hounsou indica (@israel_hounsou)

É mestrando pela UFPA, professor de francês e membro fundador do grupo África nas Escolas.

 

  • ESCRITOR: Cheikh Anta Diop

Ele é um historiador, antropólogo, egiptólogo e político senegalês. Ele enfatizou a contribuição da África e em particular da África negra para a cultura e civilização mundial. Suas teses continuam sendo discutidas até́ hoje e raramente são abordadas na comunidade científica, em particular no assunto do Egito antigo. “O cheikh fez uma coletânia de livros que adoro. Mas para indicar um é ‘Nações Negras e Cultura'”.

  • ESCRITOR: Achille Mbembe

Ele é professor de história e ciência política na Universidade de Witwatersrand (Joanesburgo) e pesquisador do Instituto Wits para Pesquisa Social e Econômica (WISER). Vencedor do Prémio Ernst-Bloch em 2018, é nomeadamente o autor, em La Découverte (2010). “O Achille fez também várias obras que adoro, mas o mais célebre é ”Necropolítica'”.

 

 

Fonte: G1PA
Foto: Divulgação