Peixes multicoloridos nadam em volta das minhas pernas nas águas cristalinas do Pacífico Sul. Em uma caminhada pela floresta subtropical, bato palmas — e os pássaros em vez de voar, correm na minha direção, domesticados pela falta de predadores.

As pessoas andam de bicicleta ao longo de 13 km de estradas estreitas, passando por túneis formados por palmeiras e crianças caminhando descalças para a escola. Não há outdoors, chave do quarto, cadeado para bicicleta, tampouco sinal de telefone celular.

Após deixar moedas em uma caixinha, totalmente na confiança, peguei um abacate em uma barraca de frutas à beira da estrada; uma máscara e um snorkel em uma cabana numa praia deserta; e um carrinho e tacos de golfe num campo de nove buracos.

Raramente há mais de outras duas pessoas pegando sol em uma das 11 praias de areia branca da ilha, e as maiores aglomerações que eu vi foram no festival semanal de peixe frito.

A Ilha de Lord Howe tem apenas 11 km de comprimento e 2 km de largura, um pedaço de terra idílico em forma de bumerangue 780 km a nordeste de Sydney.

Após uma visita em 1997, o naturalista britânico Sir David Attenborough descreveu o lugar como “tão extraordinário que é quase inacreditável… poucas ilhas, com certeza, conseguem ser tão acessíveis, tão marcantes e, ainda assim, tão intocadas.”

No entanto, este pedaço do paraíso é um destino caro demais para a maioria dos viajantes. Embora seja um voo de apenas duas horas de Sydney ou Brisbane, sai mais barato comprar uma passagem para Los Angeles.

A Ilha de Lord Howe foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 1982 por sua beleza e biodiversidade — Foto: CUTHBERT48/GETTY IMAGES

Os restaurantes são caros, assim como as acomodações de luxo da ilha, que devem ser reservadas com um ano de antecedência. Não há camping, tampouco hospedagem econômica — e navios de cruzeiro são proibidos.

Será que Lord Howe é a ilha mais exclusiva da Austrália então, um refúgio para os super-ricos que olham com desprezo para o viajante comum?

De jeito nenhum. Na verdade, é exatamente o oposto.

Tudo em Lord Howe é descontraído, exceto o fervor com que seus moradores protegem este paraíso.

A ilha outrora desabitada só foi descoberta em 1788 — e muitos residentes são descendentes dos primeiros colonizadores europeus que se estabeleceram ali em 1833.

As paisagens intocadas são seu ganha pão há quase um século, desde que os turistas desembarcaram na lagoa em hidroaviões Sandringham no fim dos anos 1940.

Em 1981, muito antes de “ecoturismo” ser uma palavra da moda e “overtourism” uma maldição, os cerca de 350 habitantes permanentes da ilha manifestaram preocupação com a destruição do seu habitat natural, com espécies invasoras, poluição e desenvolvimento.

Como resultado, o Conselho eleito da Ilha de Lord Howe, composto por quatro moradores e três membros do governo estadual de Nova Gales do Sul, limitou o número de visitantes a 400 por vez. E assim permanece até hoje.

A ilha tem regras rígidas e políticas ambientais. Os carros são restritos aos residentes que precisam deles. Não há ar-condicionado. O Conselho deve ser consultado antes de cortar um galho de árvore ou escolher uma tinta.

“Nós brincamos que você precisa de uma licença para cavar no seu próprio jardim!”, diz Clive Wilson, guia local e morador de longa data.

“Somos acusados ​​de ser burocratas ao extremo, mas nosso objetivo é preservar nosso único e delicado meio ambiente.”

Libby Grant, gerente do Capella Lodge, me contou sobre a vida na ilha no curto traslado do aeroporto para o resort de nove suítes em um carrinho de golfe elétrico.

Como todas as residências, a pousada coleta água da chuva para beber, e usa água de poço para lavar e fazer jardinagem.

“Um dos nossos maiores desafios é esperar pela barca quinzenal que chega com alimentos e suprimentos do continente”, diz ela.

Felizmente, frutas, legumes e verduras são cultivados nos viveiros da ilha.

“Nosso chef também procura algas em todo o litoral da ilha, e os pescadores nos fornecem peixe fresco.”

A reciclagem é uma parte importante da vida diária dos habitantes. Resíduos orgânicos de residências, restaurantes e lixeiras públicas, além do lodo de esgoto, são enviados para uma unidade de compostagem vertical, uma instalação de nível internacional que converte 86% do lixo da ilha em adubo para a comunidade.

Plásticos recicláveis, alumínio e vidro são transportados de barco para o continente e vendidos para compensar os custos do frete.

Já os resíduos não-recicláveis ​​são compactados e levados para um lixão no continente, uma vez que não há mais aterros sanitários na ilha.

Um sistema baseado no princípio do “poluidor pagador” desencoraja o descarte de lixo doméstico, o que significa que comprar um sofá novo, pode custar US$ 1,2 mil para despachar o antigo.

A eletricidade também tem um custo alto — um sistema de captação de energia solar para reduzir a dependência do diesel, que é caro e poluente, está previsto para ser concluído em 2020.

“Os altos custos para moradores e empresas são resultado de um vida cada vez mais contemporânea e ecologicamente correta em uma ilha remota”, afirma Grant, especialmente quando hospedam uma clientela que espera todos os confortos de casa dentro dos rigorosos limites ecológicos da ilha.

Peguei uma bicicleta gratuita e pedalei até o pequeno vilarejo da ilha, escondido pela folhagem tropical. Tem um centro comunitário, teatro, uma padaria, um açougue e uma mercearia; uma agência dos correios, algumas lojinhas e a sede do governo, onde o nascimento de um bebê na ilha é anunciado por uma “fralda” rosa ou azul no mastro da bandeira.

Os lucros das vendas na loja de bebida, operada pelo Conselho da ilha, são revertidos para projetos de melhoria local, o que significa que tomar uma cerveja é literalmente um serviço comunitário.

A paisagem da ilha é diversificada — da densa floresta tropical a montanhas íngremes. Então há uma série de atividades ao ar livre para desfrutar, incluindo surf, mountain bike e boliche de grama.

Fonte: G1
Foto: PHOTOSBYASH/GETTY IMAGES