A marajoara Bruna Luiza Silva, de 29 anos, mais conhecida como Bruna Péua, é produtora e filha de produtores do tradicional queijo do Marajó. Ela e a família são acompanhadas pelo escritório da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater) em Soure.

Apesar de acompanhar a trajetória dos pais na atividade rural desde criança, Bruna saiu do município para estudar Direito em Belém e quando voltou ao Marajó viu que era hora de fortalecer o que os produtores e agricultores familiares produziam tão bem, mas tinham dificuldade de valorizar e colocar no mercado. Para a jovem era hora de juntar forças.

“Percebi que através das relações que se estabeleciam entre produtores e a vida no campo era possível alcançar a justiça mais importante a meu ver, que é a justiça social. Neste contexto, busquei orientações na Emater em Soure e aprendi muito. Enxerguei a necessidade de organizar, através de uma associação, os agricultores familiares que produziam produtos de qualidade, mas tinham dificuldades em comercializar e gerir a produção como um empreendimento rural”, conta Bruna Péua.

E os esforços dela e de outros agricultores, sob a orientação do escritório local da Emater, surtiram efeito. Em 2019, foi criada a Associação de Agricultores Familiares dos Campos do Marajó (AAFCAM), que reúne 55 famílias de produtores rurais.

“A associação contou 100% com a assessoria da Emater, desde a elaboração da proposta até a execução, e o que motivou bastante essa organização dos produtores foi a possibilidade de competir, concorrer com outras instituições de outros municípios, que por estarem organizadas e legalmente estruturadas acabavam levando os contratos de fornecimento de itens da agricultura familiar”, explica Fernando Moura, chefe do escritório local da Emater em Soure.

Organizados em associação, os produtores puderam concorrer e disponibilizar, já em 2019, seus produtos da agricultura familiar para a Prefeitura de Soure, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). O passo foi essencial para o fortalecimento do grupo e manutenção de suas produções um ano depois, quando a pandemia assolou o país, lembra Bruna Péua.

“O associativismo em si passa a ser fundamental, principalmente no cenário global de pandemia que nós estamos, onde fica mais claro que essa união, essa soma de forças para enfrentar os desafios do dia a dia, é fundamental. De certa forma, o associativismo se caracteriza com um instrumento muito importante para que uma comunidade saia do anonimato e passe a ter uma expressão social, política, econômica e ambiental e possa ter acesso às políticas públicas, pois ele passa a comercializar, a produzir e diversificar a sua produção”, ressalta a produtora.

Em termos de diversidade, a associação é ampla, reunindo famílias que produzem desde mandioca, frutas e verduras, até alguns produtos bem característicos da culinária marajoara.

“Nosso cardápio é bem diverso dentro da Associação, onde buscamos valorizar muito a cultura alimentar tradicional do povo marajoara, através do queijo do Marajó e outros derivados, como o leite de búfala, doce de leite, manteiga, além do chouriço marajoara, e ainda trabalhamos com a piscicultura, maniva, e vamos trabalhar com o tucupi”, enumera Bruna.

Assim como o acompanhamento que foi dado a Associação de Agricultores Familiares dos Campos do Marajó, a Emater identifica comunidades e grupos de produtores que tem potencial de se organizar, oferecendo oficinas sobre associativismo e cooperativismo, além de emitir o documento mais importante que caracteriza a associação de cunho rural, que é a emissão da DAP Jurídica.

“Aqui em Soure nós temos pelo menos cinco entidades que possuem essa DAP Jurídica e outras que estão se formando nesse momento para que possam agregar os produtores de áreas, como pesca, extrativismo, além da possibilidade de concorrer ao pleito de licitação da merenda escolar”, informa o chefe do escritório local da Emater, Fernando Moura.

Associativismo Rural

Além de novos mercados para a comercialização de seus produtos e acesso a políticas públicas, o associativismo rural permite a troca de experiências entre os produtores, além de facilidade de acesso à capacitação sobre técnicas agrícolas e administrativas.

Desde que passou a integrar a AAFCAM, a agricultora Isabel Cristina Brito viu que era possível melhorar diversos aspectos de sua produção.

“Eu, meu irmão e meu primo fornecemos polpas pelo Pnae. Se não fosse a associação, não teríamos como fornecer. E estamos nos organizando para fornecer mais e melhor. A associação tem um papel central, inclusive na formação dos agricultores e agricultoras. Ano passado promoveu um curso de boas práticas de fabricação que foi muito importante para termos uma produção com mais qualidade”, conta Isabel.

A organização em associações também pode contribuir com a redução de custos para acesso a equipamentos e insumos agrícolas e o compartilhamento dessas ferramentas pelos produtores, e ainda fortalece a luta por melhorias sociais e de infraestrutura junto aos gestores públicos.

 

 

Fonte: Agência Pará
Foto: Agência Pará