Em 2017, o assunto entre empresários e guias de turismo de Fernando de Noronha era o mesmo: a crise havia batido à porta pela primeira vez na história do turismo local. Estimulados por campanhas de tarifas especiais para moradores de Pernambuco e descontos para o público em geral, turistas passaram a trocar estadias mais longas por viagens curtas de final de semana, passeios gratuitos se popularizaram e restaurantes locais sentiam a queda no movimento.

Tudo isso em meio a recordes seguidos no número de visitantes. Em 2019, por exemplo, a ilha recebeu 106 mil pessoas, 20% a mais do que prevê o plano de manejo. Mas agora, em plena pandemia, o perfil voltou a mudar nessa ilha em que o turismo representa cerca de 95% da economia local. E não estamos falando apenas na queda brusca de quase 70% de visitantes no ano passado, quando a ilha ficou fechada por cerca de seis meses e só voltaria a receber turistas, em setembro, com uma polêmica medida de reabertura que permitia o desembarque apenas de quem já tivesse tido coronavírus.

“Estão vindo mais visitantes com poder aquisitivo maior, e os pequenos estabelecimentos estão sofrendo com isso. ”

Antes, vinha também aquele turista que tinha juntado dinheiro por anos para visitar Noronha”, explica a guia de turismo Harlene Silva, em entrevista para Nossa. De acordo com uma empresária local que pediu para não ser identificada, “o turista de qualidade está de volta, com menos balada e mais ecoturismo”. Para ela, é possível notar maior número de turistas de classes mais altas e maior procura por pousadas de luxo.

“Olha, ontem, a quantidade de jatos particulares”, dizia a mensagem enviada por ela via Whatsapp, acompanhada de uma foto da pista do aeroporto da ilha com cinco jatos particulares enfileirados ao lado de um avião de uma das companhias aéreas que operam voos regulares no destino.

Só para se ter uma ideia, o trecho comercial Recife-Noronha chegou a ser vendido, recentemente, a R$ 4 mil. Já uma viagem em um jato particular Cessna para seis pessoas custa a partir de R$ 270 mil (algo na casa dos R$ 45 mil por cabeça). Sem falar na diária em uma pousada de luxo que não sai por menos de R$ 3 mil (e ainda assim com apenas quatro datas disponíveis para abril)..

A classe média não estava podendo viajar e o turista que não está indo para fora do país vai para Noronha. Mas acho que isso é uma situação sazonal. Melhorando tudo, o perfil mais misturado volta”, analisa Guilherme Rocha, administrador de Fernando de Noronha.

Enquanto isso, artistas aproveitam a maré baixa para curtir o anonimato na ilha, um dos motivos do destino ser uma das preferências nacionais de celebridades brasileiras. Só neste ano já passaram por ali casais como Bruna Marquezine e Enzo Celulari, Caio Castro e Grazi Massafera, e Rodrigo Simas e Agatha Moreira.

Menos voos, mais tranquilidade

A alta taxa de cancelamento de reservas de turistas e o agravamento da pandemia em todo o país causou também a redução no número de voos para esse arquipélago a cerca de uma hora do continente.

A ilha, que chegou a ter mais de 20 voos semanais operados pelas duas únicas empresas que atuam no destino (GOL e Azul), teve redução na malha aérea. Desde o início de abril, o número foi reduzido para 14, conforme a administração local.

Marcus Vinícius Silva em sua terceira viagem a Fernando de Noronha Imagem: Arquivo Pessoal Mas para Rocha, “isso é decorrência da crise econômica das próprias companhias que vêm sofrendo com cancelamentos por parte do consumidor. Não houve nenhuma decisão do governo”.

O paulista Marcus Vinícius Silva, que passou 11 dias na ilha entre o final de março e o início deste mês, chegou a ter seu voo remarcado três vezes na semana de seu embarque. Mas esse turista de São Caetano do Sul também notou mudanças positivas.

“Está bem mais vazia e tranquila para fazer qualquer atividade. Os protocolos adotados acabam filtrando pessoas [de fora] que possam transmitir o vírus na ilha”, completa Silva.”

O turista lembra também que percebeu menos geração de lixo e menor movimentação de barcos. “Isso acaba sendo positivo também para a proteção da ilha”, explica.

Restrições continuam

Embora o arquipélago tenha ficado de fora da quarentena mais rígida decretada em todo o estado de Pernambuco, em 15 de março, as medidas restritivas programadas para até o final de março em Noronha foram prorrogadas até o próximo dia 30 de abril. Até lá, as atividades não essenciais continuam proibidas das 22h às 5h, inclusive nos finais de semana, assim como a realização de festas, shows e eventos sociais em ambientes abertos ou fechados. Fica proibida também a utilização de som nas areias das praias e em estabelecimentos como bares, lanchonetes e restaurantes.

As novas medidas até soam brandas, em comparação com o lockdown adotado na ilha no ano passado, com praias fechadas, transporte em táxis e ônibus suspenso, e moradores proibidos de saírem de casa sem autorização prévia. “Alguns [turistas] até perguntam se está rolando alguma festinha clandestina por aí. Mas a maioria está respeitando os protocolos”, conta a guia Harlene.

Desde 21 de dezembro, quando foi publicada a portaria 064/2020, um novo protocolo de segurança permite a entrada de pessoas com exame RT-PCR negativo feito com 48 horas de antecedência da viagem e custeado pelo turista. Os trâmites começam já no check-in dos aeroportos de Natal e do Recife, onde o passageiro deve apresentar o resultado no balcão da companhia aérea e, uma vez na ilha, deixar também uma cópia do laudo.

Ao sair de Noronha, o turista faz outro teste. Desde 16 de dezembro, os exames de saída são por amostragem, cujo sorteio automático contempla 30% dos passageiros de cada voo ou embarcação. Para isso, o sorteado é avisado com antecedência e deve realizar um novo RT-PCR (pago pelo governo pernambucano).

“Quem já teve a covid-19 deve apresentar o exame RT-PCR com o resultado positivo realizado no mínimo 20 dias antes do embarque ou, no máximo, 90 dias. Também vale o exame reagente de IgG por sorologia (de sangue), feito, no máximo, 90 dias antes da viagem”, informa boletim da assessoria de imprensa da ilha.

Pandemia em Noronha

De acordo com boletim a que Nossa teve acesso, a Administração de Fernando de Noronha informou que foram registrados até a última sexta-feira (2 de abril) 603 casos de de covid-19 na ilha, cinco deles nas últimas 24 horas, cujos pacientes cumprem quarentena em isolamento domiciliar, assim como outros 14 pacientes que ainda estão isolados. Registro de pacientes de Fernando de Noronha em quarentena em fevereiro e março Imagem: Administração de Fernando de Noronha Com aproximadamente 3.101 moradores fixos, segundo dados do IBGE, o arquipélago já teve cerca de 20% da população contaminada pelo coronavírus. Do total registrado até agora, 521 são casos locais e outros 82 são importados.

Ainda segundo nota oficial, 587 pessoas já estão recuperadas e dois óbitos foram confirmados. Até o final do ano passado, a ilha vinha conseguindo manter a estabilidade no registro de casos, mas de lá para cá, praticamente dobrou, passando de 298, em 16 de dezembro, para os números atuais.

Em maio do ano passado, Noronha conseguiu zerar os casos na ilha e ficou livre do vírus por um breve período. O número de contaminados, no entanto, começou a crescer em outubro — de 70 casos para mais de 600. Segundo o administrador, com o início da vacinação em meados de janeiro e o rígido protocolo de entrada de visitantes, os números têm diminuído. No início de fevereiro havia 78 casos ativos, mas em 2 de abril eram apenas seis.

Fonte: UOL
Foto: Geórgia Kyrillos