Embora destronado, após 12 anos consecutivos no poder, é difícil desvincular o nome de Benjamin Netanyahu do título de primeiro-ministro de Israel. No discurso de despedida, ele qualificou como uma ameaça existencial ao país o novo governo comandado nos dois primeiros anos pelo ultranacionalista religioso Naftali Bennett, por meio de uma coalizão de oito partidos sem afinidades ideológicas.

Poucos legisladores duvidaram de sua promessa, em tom de ameaça, na tumultuada sessão de domingo no Parlamento, que aprovou o novo governo por um voto de diferença: “Eu voltarei em breve.”

Agora como líder da oposição, Netanyahu não fará fácil a vida de seu sucessor – ex-aliado e atual desafeto. Sob pressão de um julgamento, por acusações de corrupção e abuso de poder, ele fará tudo para minar o governo ainda na gestão de Bennett, que nos dois últimos anos cederá o poder ao centrista Yair Lapid.

Como observou a jornalista Ravit Hachet, do jornal “Haaretz”, a versão 2021 de Netanyahu na oposição será menos contida e mais perigosa em relação a que protagonizou na década de 1990: além do julgamento cujo desfecho pode ser a prisão, o ex-premiê está preso à crença de que, sem ele, Israel será varrido do mapa.

Com apenas seis deputados no Parlamento, Bennett vai liderar uma coalizão frágil, unida essencialmente pelo consenso anti-Netanyahu. Para assegurar o mínimo de sobrevivência, não deverá focar em temas divisivos como a questão palestina ou a separação Estado-religião.

Esta aliança aparentemente inviável, contudo, não se apresenta como o maior obstáculo ao novo governo. Bennett terá que conviver, em boa parte da gestão, com a sombra e também com o legado de Netanyahu, que imprimiu o nome ao de Israel, como primeiro-ministro mais longevo do país.

O novo mandatário estará sujeito a todo o tipo de comparações. Embora mais à direita em relação a seu antecessor, será acusado de esquerdista, por ser respaldado por partidos ideologicamente opostos ao seu Yamina. E terá que encontrar uma nota de sintonia entre sua base de colonos e os da Lista Árabe Unida, legenda islâmica conservadora, que pela primeira vez apoia um governo em Israel.

Bennett ainda lidará com a eterna especulação – “o que faria Bibi?”, como Netanyahu é apelidado em Israel – sempre que se deparar com uma crise. O ex-premiê conhece a fundo seus adversários políticos: os principais integrantes do novo governo já foram subordinados a ele em algum momento nos últimos 12 anos.

Está a postos para semear a discórdia entre os improváveis pares da nova aliança, ser o algoz de Bennett e explorar o menor de seus deslizes e, por fim, forçar a quinta eleição em dois anos.

Naftali Bennett é o novo premiê de Israel — Foto: Menahem Kahana/Pool via Reuters
Naftali Bennett é o novo premiê de Israel — Foto: Menahem Kahana/Pool via Reuters

 

Fonte: G1.com
Foto: Ariel Schalit/AP