O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, enfrentou nesta segunda-feira (16) reivindicações de unionistas e republicanos na Irlanda do Norte, cujas instituições autônomas regionais se encontram paralisadas por divergências sobre as disposições comerciais pós-Brexit, aumentando a tensão entre Londres e Bruxelas.

Ao chegar ao Castelo de Hillsborough, nos arredores de Belfast e lugar das negociações, Johnson foi vaiado por cerca de 200 manifestantes.

“Vou julgar o que o primeiro-ministro fizer, não necessariamente o que ele diz”, disse mais tarde o líder unionista do DUP, Jeffrey Donaldson.

“Quero ver o lugar da Irlanda do Norte no Reino Unido totalmente protegido e garantido”, acrescentou.

Dez dias depois da histórica vitória do partido republicano Sinn Fein – ex-braço político do grupo armado IRA e partidário da reunificação da Irlanda – nas eleições legislativas regionais, as instituições da Irlanda do Norte estão paralisadas pela recusa do DUP a participar delas.

O Acordo de paz da Sexta-feira Santa de 1988, que pôs fim a três décadas de um sangrento conflito entre unionistas protestantes e republicanos católicos, impôs que ambas as partes compartilhem o poder no Executivo regional desta nação britânica de 1,9 milhão de pessoas.

Apegados ao seu pertencimento à coroa britânica, os unionistas protestam contra as disposições especiais negociadas por Londres e Bruxelas, no âmbito do Brexit, para evitar o retorno de uma fronteira física com a vizinha República da Irlanda – algo inaceitável para os republicanos – que colocaria em perigo essa frágil paz.

 

Medidas unilaterais

Para os unionistas, as disposições do “protocolo da Irlanda do Norte” ameaçam seu lugar no Reino Unido, impondo controles alfandegários sobre os produtos que chegam do resto do país.

E a líder do Sinn Fein, Mary Lou McDonald, acusou Johnson de procurar em primeiro lugar satisfazê-los.

“Apesar de toda a retórica do governo britânico sobre o restabelecimento do executivo no norte, sua prioridade é apaziguar o DUP”, disse ao final de uma reunião na qual exigiu que Londres agisse para desbloquear a situação.

Nesse contexto, o governo Johnson, que há meses pede uma renegociação profunda do protocolo, pode apresentar na terça-feira um plano para suprimir unilateralmente suas partes mais conflituosas.

A ministra das Relações Exteriores, Liz Truss, apresentará ao Parlamento britânico “os fundamentos de nossa abordagem”, segundo um porta-voz de Downing Street.

Downing Street ressalta que o executivo “nunca sugeriu o descarte do protocolo”, mas sim “reformá-lo”.

A UE, que está disposta a fazer “ajustes” ao protocolo, mas não a renegociá-lo, qualificou qualquer ação unilateral de Londres como “inaceitável” e disse que pode responder com retaliação comercial.

“Espero que a posição da UE mude”, disse Johnson em um artigo publicado antes de sua viagem. Caso contrário, “uma ação será necessária” para proteger o acordo de paz da Sexta-feira Santa de 1998, acrescentou.

Ao chegar a uma reunião de chanceleres em Bruxelas, o chanceler da República da Irlanda – um país membro da UE -, Simon Coveney, considerou que uma violação por parte de Londres do direito internacional é “a última coisa que a Europa precisa quando estamos positivamente trabalhando juntos contra a agressão russa” na Ucrânia.

Antes de encontrar Johnson, Michelle O’Neill, do Sinn Fein, que deve se tornar a nova primeira-ministra da Irlanda do Norte, se reuniu com o primeiro-ministro irlandês Micheál Martin em Dublin.

 

Fonte: UOL
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